Viajar a Cavalo – África do Sul

De Volta a Origem

Por Jacira Omena*

 

Setembro de 2016

África do Sul a Cavalo – Sentimento de Pertencer ao Lugar.

A cada destino de viagem a cavalo, há uma história por trás da escolha.

Com a África do Sul não foi diferente.

Apesar de ter realizado essa viagem há menos de um mês, e de ter decidido a compra do pacote em menos de uma semana, a minha história com a África do Sul vem de longe. Nove anos, precisamente.

Estive no continente africano há nove anos, para uma viagem com dois sobrinhos, minha irmã, e minha mãe, já falecida, na época com 71 anos. Foi a realização de um sonho que eu já cultivava há muitos anos. Uma verdadeira aventura, em um caminhão/ônibus amarelo, que cruzou a África do Sul desde Johannesburg, atravessou todo Parque Nacional Kruger, Zimbabwe, e adentrou pela Botswana através de Victoria Falls, para voltar ao ponto de partida dez dias depois.

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Foto: Jacira Omena

De acampamento em acampamento, vivemos uma viagem linda e inspiradora. Não esqueço nunca o sorriso estampado no rosto e nos olhos verdes da minha mãe ao passear em cima de um elefante, ou mesmo avistar uma girafa.

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Foto: Jacira Omena

Nessa época ainda não fazia viagens a cavalo, mas a minha paixão por cavalos me fez contratar um dia a cavalo em Victória Falls, no Zimbabwe. Experimentei um pouco a sensação de avistar animais a cavalo sendo parte daquele ambiente.

áfrica do sul

Voltar a África – Viagem a Cavalo

Logo depois da minha volta, comecei a fazer viagens a cavalo, e ir a África fazer um safari a cavalo sempre esteve na minha lista de desejos.

Duas coisas me fizeram ficar longe de alcançar esse desejo e transformá-lo em realidade: O nível de experiência avançado, exigido nessas programações, e o valor dos pacotes de viagem a cavalo para Botswana e Kenya, os destinos mais bombados da África para esse tipo de atividade.

O primeiro obstáculo ficou para trás. Após tantas viagens desafiadoras pelos Andes Equatorianos, Cordilheiras Argentinas e Rajastão, posso me considerar uma veterana.

Restava o segundo empecilho, o preço. Esse estava difícil de solucionar.

Fiz várias viagens nesse meio de caminho, mas sempre com o radar ligado para as ofertas de roteiros para a África por parte das operadoras. Há mais ou menos um ano apareceu um roteiro na África do Sul em uma reserva particular há 3 horas de Johannesburg. Os valores eram mais acessíveis, próximos aos de outros destinos, e a facilidade de acesso mantinham os custos dentro do possível.

Esperei a baixa temporada, os descontos, e fui!

Parti em setembro para a África do Sul para realizar um desejo e inspiração que quase completou uma década.

A viagem começou por Johannesburg, onde cheguei um dia antes do início da programação, como faço de costume. Fiquei em uma pousadinha linda próxima ao aeroporto, de onde saí no dia seguinte, já refeita do longo voo do Brasil, para encontrar a caminhonete que nos levaria para o local do início da viagem a cavalo propriamente dita. Lá estavam duas simpáticas americanas, da Califórnia, Sharma e Susan, e Conny, alemã da região de Hamburgo.

Chegamos na reserva e fomos diretamente para o nosso “lodge” para um almoço tardio. Fome!! Lá encontramos mais duas companheiras de viagem, Petra, alemã, e uma jovem francesa, Aurelie.

Não! Não é uma viagem exclusiva de mulheres! Mas, frequentemente isso ocorre em viagens a cavalo. Grupos exclusivos de mulheres formados naturalmente, e sem aviso prévio. Nenhum problema! Antecipo que o grupo foi excepcional!

Nosso “lodge” era um de tantos espalhados pela reserva gigantesca. Cada um com uma característica que tinha relação com a localização e nível de conforto. Wildside Camp, o primeiro em que nos instalamos, tinha tendas de lonas, sobre deck de madeira, e cobertura de piaçava, que se espalhavam entre uma vegetação tipicamente africana, de arbustos e árvores de pequeno porte. Nenhuma cerca nos separava dos animais que gostaríamos de avistar. Devido a isso, não era permitido andar de lá para cá sem estar acompanhada de um “Ranger”.

Não podemos perder tempo!

Nessa mesma tarde de nossa chegada, já fizemos um safari tradicional com os típicos jeep de safari. Fomos em busca dos animais que normalmente não podemos avistar a cavalo. Digo, os felinos, leões, puma, guepardos, predadores naturais dos cavalos na cadeia alimentar. Encontramos primeiro uma leoa com dois filhotes camuflados na vegetação. Não muito longe, e depois de um aviso pelo rádio, partimos ao encontro de um grande leão que estava próximo de um lago. Caminhava calmamente e majestoso sem dá notícias das pessoas e suas câmeras que o observava avidamente em busca das melhores fotos.

Fotos: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

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Foto: Jacira Omena

Satisfeitos com os achados do dia, voltamos para o acampamento para o jantar e instruções para o dia seguinte. Nossa verdadeira viagem. Recebemos informações sobre o dia seguinte, e como deveríamos nos comportar em grupos por toda a viagem. Instruções de segurança e responsabilidade com o grupo. Também, foi passada uma linguagem de sinais, importante em situações onde o silêncio é determinante tanto por questões de segurança, como também para convívio entre os animais, aumentando as chances de avistá-los de mais de perto.

A partir dali a história seria diferente! Não seria brincadeira de crianças!

Seria nós, os cavalos, a África e os animais selvagens!

O tempo passou rápido, e logo me vi de manhã cedo no nosso ponto de partida, um campo de golfe. Lugar inusitado! No meio do tom palha da savana africana, o verde do campo de golfe com seus carrinhos elétricos destoava e parecia miragem.

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Foto: Jacira Omena

Voltemos aos cavalos!

O guia principal de origem holandesa, Dyon, e seu assistente, Loidi, do Zimbabwe, nos esperavam com os cavalos. Já estavam definidos baseados em nosso perfil.

O meu seria um cavalo negro de médio porte, bastante robusto, e bem tranquilo. Creio que um exemplar da raça Black Canadian Rock Mountain, ou um cruzado dessa raça. Pergunto ao guia que dá de ombros com um – Pode ser!

Veja o que descobri sobre as raças de cavalo que encontrei na África do Sul!


Aproveito o momento para observar os outros cavalos e minhas companheiras de viagem na aproximação com eles. É um ritual envolvido numa abordagem cuidadosa, de leitura de sinais que possam antecipar respostas as principais questões envolvidas nessa futura e imediata parceria que se estabelece naquele instante.

Tem bom temperamento? Confortável? Andamento? Bom galope?

Tudo ao mesmo tempo, e muito rápido, já que a preocupação maior é com a sela, os arreios, os ajustes e a organização de nossos pertences nos alforjes.

E por falar em sela, ela é inglesa, sem muita preocupação com o conforto durante a cavalgada, e para mim, carecendo de uns bons centímetros a mais.

Todos prontos, partimos em direção ao platô a nossa frente. Nossa “casa” e território de exploração nos próximos dias estava ali, há 600 metros de elevação e trilhas de acesso que chegavam a 45% de inclinação.

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Foto: Jacira Omena

Até chegarmos ao seu sopé, passaríamos escoltados por “rangers” pelo território dos leões e degustaríamos um providencial almoço. De lá em diante, só poucos não fizeram uso do jeep para subir as partes mais íngremes, impossíveis de serem subidas montadas, e duríssimas de serem trilhadas com suas próprias pernas.

A recompensa estava lá em cima!

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Foto: Jacira Omena

Nada podia nos preparar para a paisagem que ali se esparramava. Estava ali o cenário que faria parte dos nossos próximos dias. De diferentes partes partiríamos a cavalo em busca dos animais em seu ambiente original. Através de trilhas de todos os tipos faríamos coreografias de aproximação para em questão de segundos a minutos termos a chance de ficar próximos dos animais que só vemos em documentários ou em zoológicos.

Dois tipos de “lodge” foram utilizados. O primeiro chamado “fly camp”, bem rústico e simples, foi utilizado por quatro dias. Tendas de lonas se dispunham em torno de uma estrutura básica de acampamento. Os cavalos ficavam ao lado. Outro, mais confortável, localizado nas encostas da principal formação rochosa da reserva, foi utilizado nos últimos dois dias.

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Foto: Jacira Omena

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Foto: Jacira Omena

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Foto: Jacira Omena

Pelas trilhas da África a cavalo!

Dia após dia, duas vezes ao dia, saíamos com nossos cavalos em busca de animais a serem avistados. Cada vez em direção a uma área diferente, dependendo da hora e das informações colhidas pelos guias junto aos guardas da reserva.

Trilhas planas, ou muitas vezes escarpadas, foram transpassadas por nossos cavalos sem muito esforços. Extremamente adaptados ao terreno, seus cascos sem ferraduras eram insensíveis ao solo pedregoso da maioria dos caminhos. E sua tranquilidade na presença dos animais selvagens era admirável e bastante valorizada, já que bastava a nossa apreensão de novatos naquele ambiente.

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Foto: Jacira Omena

Não havia dia igual ao outro, nem faltava animais para nos surpreender a cada momento. Uns mais fáceis de serem encontrados que os outros. Girafas, zebras, rinocerontes, macacos, gnus, veados, wildbeast, elefantes…

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Foto: Jacira Omena

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E por falar em elefantes…

Foi o mais difícil de todos! Por dias, seguimos rastros e fezes de elefantes na tentativa de encontra-los ou mesmo avistá-los de longe. Por várias vezes ouvíamos dos guias o relato de suas visitas aos seus acampamentos durante a noite, e até mesmo a recepção de nosso “lodge”. Para nós restava a frustração.

Na nossa penúltima noite na reserva, após o jantar, de volta as nossas cabanas, quando passávamos pela piscina, o motorista do jeep freou bruscamente, desligou o motor e falou baixinho – Tem um elefante na piscina.

Tinha um elefante na piscina!

Não sei quanto tempo passou sem que ninguém ousasse abrir a boca, piscar ou se mexer, até que o motorista acendeu a luz do jeep. A nossa frente, dentro da piscina, estava um imenso elefante brincando com a água. Fazia chuveirinho com a sua tromba. Repetiu várias vezes! Depois, saiu da piscina, foi em direção aos colchonetes laranjas das cadeiras, pegou-os, e um a um jogou-os sobre a sua cabeça. Estava se divertindo. Ao final da sua brincadeira particular, saiu da área da piscina e passou bem do ladinho do nosso jeep que a essa hora já estava com o motor e luzes desligadas para não correr o risco de chamar a atenção do “pequeno” paquiderme. Foi embora atrás da sua turma que fazia barulho não muito distante dali.

E nós?

Calados, imóveis e incrédulos diante do ocorrido.

A sensação é que podíamos morrer depois daquilo!

Nada que ocorreu depois disso é digno de nota! Vivi, me recordo, e de imediato esqueço. Insignificante diante da imagem do elefante dentro da piscina a nossa frente.


Nota: Vimos elefantes fora da piscina também! Um pouco de longe, é verdade! Mas, valeu muito!

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Foto: Jacira Omena


Veja as fotos dessa viagem a cavalo na África do Sul!

GALERIA DE FOTOS – ÁFRICA DO SUL
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Sobre o Autor

Jacira Omena
Jacira Omena 198 posts

Viajante e Escritora - Escreveu o Livro - Viajar a Cavalo:Um Guia Passo a Passo. "Viajo pelo mundo a cavalo sempre a procura de algo novo e surpreendente, e com grande frequência sou bem-sucedida nessa busca!

*O conteúdo dessa matéria é de inteira responsabilidade do seu autor, não tendo a Viajar a Cavalo qualquer responsabilidade sobre o teor dessas informações.

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