Tornado ou Silver – O Verdadeiro Nome do Cavalo do Zorro

Tornado ou Silver – O Verdadeiro Nome do Cavalo do Zorro

Foto: Divulgacão

 

Por Nano Souza

http://www.hqmaniacs.com/principal.asp?acao=materias&cod_materia=929 

 

 Saque rápido: 

Quem é o Zorro? É um sujeito com bigodinho que se veste de preto ou um cara de camisa azul e chapéu branco?

 Ele prefere usar espada ou seus revólveres 38?

 Seu cavalo é o garanhão negro Tornado, ou o branco Silver?

 Seu parceiro é o mudo Bernardo ou o índio Tonto?

 Ele mora na Califórnia sob domínio espanhol no início do século XIX ou no velho oeste na segunda metade deste mesmo século?

Se para alguns a resposta parece óbvia, para o pessoal “das antigas” não é tão fácil assim. 

Não faz nem dez anos, a telenovela da rede Globo “Bang Bang” colocava um zorro de preto, bigodinho, capa e espada ao lado do índio Tonto, e do cavalo Silver. Claro que a produção da telenovela brasileira poderia ter pesquisado melhor, mas muito provavelmente o fato é que o autor, Mário Prata, cresceu lendo gibis que misturavam essas duas versões do Zorro.

Em primeiro lugar, vamos esclarecer que são personagens bem diferentes, e que só um deles é o verdadeiro Zorro: o cavaleiro da Califórnia espanhola, do início do século XIX, vestido de preto, de capa e espada, combatendo o governo colonial, cuja identidade secreta era do fidalgo Don Diego de La Vega, conhecida apenas por seu fiel mordomo apropriadamente mudo, Bernardo. Ele cavalgava num garanhão negro, Tornado.

O personagem foi criado pelo escritor Johnston McCulley para o romance A Maldição de Capistrano, publicado originalmente em 1919. Logo os direitos do livro foram comprados e transformados no filme A Marca do Zorro, em 1920, que acabou renomeando o livro quando ele foi relançado.

 Dali se seguiu um dos primeiros fenômenos da cultura popular mundial, resultando em dezena de filmes, tiras em quadrinhos, rádio novelas, e novos livros. Uma das versões mais populares foi a série de televisão produzida pela Disney, na segunda metade dos anos 50, com o ator Guy Williams no papel-título.

Essa popularidade era compartilhada no Brasil, onde qualquer produto do Zorro era sucesso certo. Por isso existe a grande pergunta se o personagem The Lone Ranger foi batizado dessa forma por confusão mesmo, ou por oportunismo comercial das editoras de quadrinhos que não detinham os direitos de publicação do verdadeiro Zorro, e por isso buscavam genéricos. Tal confusão foi posteriormente compartilhada pela televisão e pelo cinema. Quando a popular série de TV (nos Estados Unidos) do Lone Ranger chegou no Brasil, foi chamada por aqui As Aventuras de Zorro – O Cavaleiro Solitário, seguindo uma tendência já inaugurada pelos gibis.

The Lone Ranger é um personagem originalmente criado para uma rádio novela norte-americana, por George Washington Trendle e o escritor Frank Striker, em 1933. Sua identidade secreta é do ranger (guarda rural texano) John Reid, embora ele não a use. O herói sempre está de máscara, e só oculta o nome verdadeiro para que sua família não sofra as consequências caso seu verdadeiro nome seja conhecido.
Na verdade, ele tem bem poucas semelhanças com o Zorro, apesar da máscara negra. Afinal, o Cavaleiro Solitário se veste de maneira bem mais “colorida” – geralmente camisa azul, ou vermelha.  Seu chapéu é indefectivelmente branco (como o era todos os chapéus dos mocinhos do velho-oeste nos anos 50, onde o chapéu negro cabia para os bandidos). Branco também era seu cavalo, o famoso Silver. Suas principais armas eram seus colts 38, onde disparava sempre balas de prata, sua marca registrada. Na televisão, Lone Ranger não matava, sua mira era tão certeira, que ele podia desarmar os bandidos atirando diretamente no seu revólver. Também era um excelente lutador corpo a corpo, e tinha como parceiro constante o índio Tonto, um apache que conheceu ainda em sua infância.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Sendo criado pelo mesmo autor do Besouro Verde, outra rádionovela de sucesso, quando os fãs notaram que o sobrenome “Reid” era compartilhado pelos dois, Trendle afirmou que o Besouro Verde, era descendente do Cavaleiro Solitário, mais especificamente, filho do seu sobrinho, Daniel Reid, que de vez em quando atuava também como parceiro-adolescente do herói do velho oeste. Na verdade, a origem da fortuna do Besouro Verde estava justamente naquela mina de prata de onde o Lone Ranger tirava o minério para fazer suas balas.
Na sua origem original, Reid é salvo por Tonto após seu grupo de rangers ter sido atacado por índios apaches. O guerreiro reconhece seu amigo de infância e intervém. Posteriormente, essa origem seria modificada, para tons menos racistas, com o grupo de rangers, incluindo seu pai e seu irmão, assassinado por criminosos, e John às portas da morte, sendo encontrado por Tonto. Com os criminosos acreditando que todos os rangers estavam mortos, Reid adota uma máscara e passa a agir sob uma identidade secreta, de forma a proteger a viúva de seu irmão, e seu sobrinho, Dan Reid Jr. Assim os criminosos não sabem quem de fato é o Cavaleiro Solitário, e não podem se vingar através da família do herói. Para manter o disfarce, ele não volta mais a sua identidade original, que para todos os efeitos, está morta.
A rádionovela teve bastante sucesso, motivando a produção de filmes e séries para o cinema e, claro, tiras em quadrinhos para o jornal. Em 1948 surgiram as primeiras revistas em quadrinhos, cujos direitos foram adquiridos pela editora Ebal, que as lançou por aqui a partir dos anos 50.
Ele também chegou desde cedo no Brasil, com suas primeiras tiras em quadrinhos sendo publicadas pelo Globo Juvenil em dezembro de 1938. Além desse tabloide, as tiras seguiram em outras publicações, ao longo dos anos 40, tais como Gibi Tri-Semanal, Almanaque de O Globo Juvenil,Biriba, Novo Gibi, Novo Globo Juvenil e Guri. Cada veículo dava um nome diferente ao pistoleiro mascarado, tais como Guarda Vingador, Justiceiro Mascarado, Kid Roger, Cavaleiro Mascarado, além de claro, Zorro, e até mesmo o nome original, Lone Ranger, mantido sem tradução.
Para os historiadores dos quadrinhos, isso acontecia pela dificuldade dos tradutores da época em traduzir a palavra “Ranger” para um termo fácil em português. Afinal Ranger é uma espécie de guarda rural montado, que existia no estado do Texas, em meados do século XIX.
De acordo com outra teoria, os distribuidores confundiam os dois personagens devido a uma série de coincidências. Primeira: em 1936 o ator Robert Livingstone interpretou o Zorro hispânico emThe Bold Caballero e também fez o Cavaleiro Solitário no seriado da Republic The Lone Ranger Rides Again. Segundo: Clayton Moore, que interpretou o herói cowboy na série de TV também interpretou um descendente do herói espadachim no seriado da Republic The Ghost of Zorro(1949).
Quando a Ebal adquiriu os direitos da revista em quadrinhos da Dell Comics, optou pelo Zorro, muito provavelmente por razões comerciais. Na sua primeira edição, lançada em março de 1954, havia ainda um subtítulo, As Aventuras de Lone Ranger, mas logo isso caiu por terra.
“Zorro” foi um grande sucesso comercial entre os títulos da Ebal, e foi publicado pela editora até 1985, totalizando quase 500 edições com o personagem. Além da revista principal, houve uma série de almanaques, especiais (até mesmo estrelados pelo índio Tonto), e a série em cores. 
Além dos gibis, a popularidade do personagem refletia na TV – ou o contrário, a popularidade da TV era que refletia nos quadrinhos, impulsionando as vendagens. Lone Ranger ganhara uma série de enorme sucesso nos EUA, com Clayton Moore no papel título e Jay Silverheels, um descendente de índios Mohawk como Tonto. O programa foi produzido de 1949 até 1957, sem contar as reprises que continuaram até os anos 60. Por aqui, o programa também foi chamado de “Zorro” (As Aventuras do Cavaleiro Solitário, no subtítulo), talvez como forma de concorrer com o seriado de enorme sucesso do verdadeiro Zorro, pela Disney, que era transmitido por uma emissora concorrente.

Já os dois filmes produzidos na mesma época com o elenco da TV, com Moore e Silverheels nos papéis principais, receberam títulos diferentes: The Lone Ranger (1956) foi chamado de O Justiceiro Mascarado; já The Lone Ranger and The Lost City of Gold (1958) seguiu a tendência anterior, e foi chamado no Brasil de Zorro e o Ouro do Cacique.

Assim, toda uma geração de brasileiros cresceu conhecendo esse “Zorro”, e por isso a confusão que até hoje acontece entre muita gente.
A troca de nomes só começou a se desanuviar nos anos 80, quando a série de desenhos animados da Filmation passou a ser transmitida no Brasil pelos programas Balão Mágico, e posteriormente Xou da Xuxa. Nela, The Lone Ranger era novamente chamado de Cavaleiro Solitário – muito provavelmente porque a série fazia parte de um pacote que incluía ainda uma série com o verdadeiro Zorro, e não havia como os programas brasileiros transmitirem desenhos diferentes com o mesmo nome.
No entanto, o declínio da popularidade do personagem já estava em curso. Tanto suas tiras em quadrinhos, quanto suas revistas foram interrompidas nos EUA – e consequentemente no Brasil, em meio à crise que fechou as portas da editora Ebal. Sem novas produções no cinema e na TV, esse “Zorro” foi esquecido, em detrimento do original, que continuou ganhando novos filmes, e cujas reprises dos programas antigos o mantiveram constantemente no imaginário popular.


Texto publicado originalmente em 08 de agosto de 2013

http://www.hqmaniacs.com/principal.asp?acao=materias&cod_materia=929

 

 

Anterior Colômbia - Minhas compras básicas
Próximo O Tropeirismo - Cavalos & Muares na América

Sobre o Autor

Jacira Omena
Jacira Omena 326 posts

Viajante e Escritora - Escreveu o Livro - Viajar a Cavalo:Um Guia Passo a Passo. "Viajo pelo mundo a cavalo sempre a procura de algo novo e surpreendente, e com grande frequência sou bem-sucedida nessa busca!

*O conteúdo dessa matéria é de inteira responsabilidade do seu autor, não tendo a Viajar a Cavalo qualquer responsabilidade sobre o teor dessas informações.

Você também pode gostar de

Guias e tutoriais Leia e comente!

Sharma Gaponoff – Tevis Cup

Sharma conta a sua trajetória no meio equestre, e como chegou a Tevis após se aposentar de uma bem-sucedida carreira internacional de geóloga na indústria petrolífera. E mais, numa vibrante narrativa, põe o leitor sobre o lombo do seu cavalo e consegue que ele veja através dos seus olhos e respiração toda energia de estar participando da prova de enduro mais difícil do mundo – as 100 milhas em 24 horas de Tevis, Califórnia. Isso é possível? Sim. Mal comecei a ler, e já posso dizer, que é assim que você se sente ao ler o livro de Sharma, mesmo que esteja sentada no sofá de sua sala de estar.

Guias e tutoriais Leia e comente!

Quanto Peso o Cavalo Pode Carregar?

Trabalhos mais recentes foram além, e trouxeram resultados e recomendações mais precisas. Como o da Universidade de Ohio, 2008, que avaliou vários indicadores enquanto os cavalos faziam exercícios carregando 15, 20, 25 e 30 por cento do peso do seu corpo.

Histórias e Tradições 2 Comentários

Cavalhadas no Nordeste (Alagoas): uma tradição que resiste ao tempo

Como sabemos são muitas as tradições que envolvem cavalos e cavaleiros, algumas delas vindas de épocas medievais e até hoje muito presentes em festas populares, como é o caso das Vaquejadas e Cavalhadas. O testemunho dos primeiros cronistas aponta as Cavalhadas no Nordeste como os primeiros acontecimentos folclóricos a cavalo, no Brasil.

Leia e comente!

Nenhum Comentário ainda

Você pode ser o primeiro a comentar esse post!